sexta-feira, 8 de março de 2013

A professora que fez da Educação uma lição de vida

Neste dia 8 de março, data Internacional da Mulher, o Marconews traz uma homenagem especial às mulheres, com uma entrevista feita em 2011 com a professora aposentada Lúcia Araújo (foto), então com 93 anos. A reportagem foi publlcada na Revista Divina. A vida da professora serve como exemplo para todos nós e mostra a força da mulher. Leiam agora a matéria completa.
A professora aposentada Lúcia Araújo fez do magistério um verdadeiro sacerdócio. Entre seus alunos, estão muitas pessoas de destaque hoje na sociedade itapetiningana, como o advogado Francisco de Castro, pai do promotor de justiça Célio de Castro Sobrinho, além de inúmeros funcionários do Banco do Brasil. Formada pela então Escola Normal Peixoto Gomide, a professora passou boa parte de sua carreira lecionando na zona rural, não apenas em Itapetininga, mas em diversos municípios da Região. Isto em uma época em que o acesso aos bairros mais distantes era muito difícil e a viagem era feita a cavalo. Por esta razão, os professores chegavam a morar no sítio, raramente vindo à cidade.
Familiares contam que a professora levava a filha mais velha, Linda, junto. “Eu punha a menina em uma caixa de papelão e ia a cavalo dar aula”, conta a educadora. Até a pé a professora chegou a ir dar aula, o que provocou um susto: “Eu estava andando e no meio do caminho apareceu uma cobra. Eu tive de passar bem por cima dela; lembro até hoje disso”, lembra, ressaltando que enfrentava tudo sozinha. Devido às dificuldades da época, era o marido da professora, Dimas, que ia visitá-la no bairro onde lecionava.
Professora da primeira a quarta série, Lúcia Araújo gostava de trabalhar com os alunos do primeiro ano. “As outras professoras não queriam pegar o primeiro ano porque os alunos tinham de ser alfabetizados, mas eu gostava disso. Eu pensava: se dou aula para a quarta série, por que não para o primeiro ano também?”.
Sem medo de enfrentar desafios e sempre disposta a trabalhar, a veterana professora conciliava o magistério com o fato de ser dona de casa e mãe. Assim, depois de mais de 20 anos ensinando na zona rural, foi transferida para a escola Fernando Prestes, onde sempre que podia auxiliava em diversas atividades e socorria as outras professoras.
“Havia uma classe, bem em frente à minha, onde os alunos eram muito barulhentos. A professora chorava por não conseguir controlar os estudantes”, lembra Lúcia Araújo. Após passar a lição para seus alunos, Lúcia ia em socorro da colega, cuidando para que os alunos ficassem quietinhos. “Onde precisasse de mim, eu ia”, lembra a professora, que chegou a lecionar, nessa época, para classes de alunos de 15 anos. Ela também preparava e aplicava os exames, além de ensinar canto. A professora garante que os estudantes dessa época também eram bagunceiros.
 
Dedicação e cobrança
            Com dedicação, e também muita cobrança a professora alfabetizou muitas crianças e jovens, fazendo com que merecidamente fossem promovidos de uma série à outra.  Com iluminação à base de lampião, pois ainda não havia energia elétrica naquele tempo, Lúcia preparava os cadernos que seriam utilizados na alfabetização dos alunos.
Tal dedicação rendia elogios dos diretores com os quais a professora trabalhava, entre eles Abílio Fontes.  “Os diretores examinavam os cadernos para saber o que a gente ia dar em sala de aula”, lembra Lúcia. Além das matérias, os cadernos continham também as tarefas que os estudantes tinham de fazer em casa. Esse trabalho todo tinha uma recompensa: nunca um de seus alunos foi reprovado.
A dedicação da mestra ia além. Se algum aluno tinha uma deficiência, ela ia até a casa dele para ajudá-lo a recuperar.
Para manter a classe sob seu controle, ela tinha um truque: chegava um pouco antes do início da aula e colocava toda a matéria na lousa. Assim, quando entravam na sala, os estudantes tinham de copiar tudo e a professora podia prestar atenção em que conversava.
A professora também alfabetizou filhos e netos e ainda hoje corrige quando alguém fala alguma coisa errada. Incansável, aos 80 anos auxiliou o filho de uma empregada da família. Em 20 dias, o menino, que estava no segundo ano, mas praticamente não sabia ler, estava alfabetizado e passou de série.
Depois de 11 anos atuando na Escola Fernando Prestes, a professora se aposentou, recebendo um prêmio do Centro do Professorado Paulista.
Nascida em 15 de março de 1917, Lúcia Ferreira de Araújo completa 96 anos este ano, com saúde, alegria e, claro, um pouco de vaidade, tanto que ela não queria tirar a foto sem estar arrumada. Nada mais justo para quem fez a diferença na vida de tanta gente.

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