terça-feira, 19 de março de 2019

Água: a razão das próximas guerras?

Falta d’água pode gerar conflitos

Rio Itapetininga

          No próximo dia 22, o mundo inteiro comemora o Dia da Água. Para marcar esta data, o Marconews traz duas reportagens especiais sobre a questão do água no planeta e no Brasil. Esta é a primeira matéria.

A Terra, este pequeno planeta azul repleto de vida – incluindo os seres humanos – poderia muito bem chamar-se planeta água. Afinal, 70% da superfície da terra é coberta de água. Apesar deste número impressionante, mais de 95% desse volume todo de água é impróprio para o consumo.
          Os dados oficiais estimam que entre 0,77% e 2,5% de toda água no planeta seja adequado para o consumo. Além disso, a maior parte da água potável se encontra nas geleiras (aproximadamente 80%).
          Isto posto, a primeira conclusão a que se chega é que existe muito pouca água potável no mundo. E a população mundial, que já está na casa dos sete bilhões de indivíduos, não para de crescer. Um dos grandes desafios – se não o maior - para o futuro da humanidade é garantir o fornecimento de água para todos. A água é um bem finito e deve ser usada de maneira consciente. Mas como pedir o uso racional de algo, quando a pessoa não tem acesso a esse algo, mesmo essa coisa sendo essencial à vida?
          Como pedir que crianças sedentas e imundas não tomem a água que precisam, ou deixarem de fazer a higiene pessoal? Como pedir para o agricultor que espera ansiosamente a chuva para plantar e ter o mínimo para sobreviver, que use menos água? Como garantir o acesso de bilhões de pessoas a este bem essencial, mas que deve ser usado com cuidado e respeito?
          Estima-se que 1,4 bilhão de pessoas não tenham acesso a água limpa. E este número pode crescer. Não é à toa que especialistas apontam a água como uma das principais razões para guerra nos próximos anos. Afinal, sem água não há vida. E todos têm o direito à vida!
          Se a situação já é preocupante, a ação do homem torna o quadro ainda pior: poluição de rios, destruição de nascentes, uso irresponsável da água e aquecimento global. Tudo isso é resultado da presença humana no planeta. As cidades surgiram e cresceram perto de rios e lagos. São Paulo, Sorocaba, Itapetininga, Tietê, Salto, estes são apenas alguns exemplos próximos de nós de como as cidades foram fundadas perto de cursos d’água e de como esses rios se tornaram parte da história desses municípios.
          Pena que os municípios não trataram os rios com o devido respeito, despejando toneladas de lixo e esgoto em suas águas, matando quem lhes dá vida!

A água no planeta
          Especialistas apontam para o fato de que, além de ser pouca, a água potável não é distribuída de maneira igual pelo mundo. Em vista disso, existe locais onde a água é considerada um recurso muito valioso. Em virtude dessa desigualdade de distribuição, em várias regiões ocorrem verdadeiros conflitos por água. E esta é uma situação que acontece há muito tempo, desde antes de Cristo, segundo o consultor em saneamento ambiental José Aurélio Boranga (veja esta matéria amanhã).
Além da escassez de água em algumas regiões, existe ainda o problema da baixa qualidade. A poluição causada pelas atividades humanas faz com que a água esteja disponível, porém não esteja própria para o consumo. Estima-se que 20% da população mundial não tenha acesso à água limpa e, segundo a UNICEF, cerca de 1400 crianças menores de cinco anos de idade morrem todos os dias em decorrência da falta de água potável, saneamento básico e higiene.
Diante da importância da água para a nossa sobrevivência e da necessidade urgente de manter esse recurso disponível, surgiu o Dia Mundial da Água. Essa data, comemorada no dia 22 de março, foi criada em 1992 pela Organização das Nações Unidas (ONU) e visa à ampliação da discussão sobre esse tema tão importante. No dia 22 de março de 1992, a ONU, além de instituir o Dia Mundial da Água, divulgou a Declaração Universal dos Direitos da Água, que é ordenada em dez artigos.

1- A água faz parte do patrimônio do planeta;
2-A água é a seiva do nosso planeta;
3- Os recursos naturais de transformação da água em água potável são lentos, frágeis e muito limitados;
4- O equilíbrio e o futuro de nosso planeta dependem da preservação da água e de seus ciclos;
5- A água não é somente herança de nossos predecessores; ela é, sobretudo, um empréstimo aos nossos sucessores;
6- A água não é uma doação gratuita da natureza; ela tem um valor econômico: precisa-se saber que ela é, algumas vezes, rara e dispendiosa e que pode muito bem escassear em qualquer região do mundo;
7- A água não deve ser desperdiçada nem poluída, nem envenenada;
8- A utilização da água implica respeito à lei;
9- A gestão da água impõe um equilíbrio entre os imperativos de sua proteção e as necessidades de ordem econômica, sanitária e social;
10- O planejamento da gestão da água deve levar em conta a solidariedade e o consenso em razão de sua distribuição desigual sobre a Terra.

Direito de todos
Como toda a população necessita da água para a sua sobrevivência, em julho de 2010, a Assembleia Geral das Nações Unidas declarou, através da Resolução A/RES/64/292, que a água limpa e segura e o saneamento básico são direitos humanos. Sendo assim, a água de qualidade e o saneamento básico passaram a ser um direito garantido por lei. O uso racional e sua preservação são fundamentais para garantir qualidade de vida para a nossa geração e para as futuras. Faça uso consciente da água!

Bacia do rio Tietê
Segundo especialistas, Grande parte dos rios da Bacia Hidrográfica do Alto Tietê está poluída de maneira tão grave que suas águas estão inadequadas para a maioria dos usos, como o consumo humano, a pesca e a recreação.
Não é necessário ser especialista em recursos hídricos para notar, por exemplo, que os rios Tietê e Pinheiros estão poluídos. Basta passar por alguma das marginais que o próprio odor fala por si só. Entretanto, as informações disponibilizadas pelo governo assustam por revelar a dimensão e a complexidade desse problema, que não é apenas ambiental, mas também social e econômico.
Mapas que mostram a situação dos rios paulistas divulgados pelo governo apresentam a situação dos rios por meio de um mecanismo chamado enquadramento. Previsto na Política Nacional de Recursos Hídricos, o enquadramento é um importante instrumento de gestão e planejamento ambiental que tem o objetivo de garantir a qualidade da água de maneira compatível a seu uso ao mesmo tempo em que serve como uma sinalização preventiva para que a qualidade não piore. Assim, os rios do Brasil podem ser classificados em quatro diferentes classes, sendo a classe 1 para os rios com as águas de melhor qualidade e a classe 4 para os que estão em situação mais crítica.
A realidade das águas dos rios paulistas é preocupante, principalmente na Bacia do Alto Tietê, próximo à Região Metropolitana da capital. Vale lembrar que o Rio Tietê, que dá o nome da bacia hidrográfica, nasce no município de Salesópolis, e vai se deslocando para a porção noroeste do Estado de São Paulo.
No mapa elaborado pelo governo, a área das nascentes do rio está destacada em verde e, conforme as águas vão se aproximando da urbanizada e populacionalmente concentrada cidade de São Paulo, suas condições vão piorando. Isso acontece igualmente com as demais águas que nascem límpidas em Mairiporã, ao norte, ou Embu-Guaçu, ao sul, e vão sendo degradadas ao se aproximar do seu ponto mais baixo de drenagem, próximo ao Tietê.
A previsão normativa de rios classe 4 é considerada por muitos especialistas um absurdo. Legalmente, as águas desses rios podem ser destinadas somente à navegação e à harmonia paisagística (Resolução Conama nº 357/2005). Para esses críticos, a previsão normativa dos rios de classe 4 representa uma aceitação pelo Estado dessa realidade e, mais do que isso, uma indicação perversa da impossibilidade de reversão desse quadro.
Apesar da situação crítica, muitos acham possível reverter o quadro, através de pressão da sociedade, com a criação de comitês de bacias fortes, com a atuação de técnicos capacitados e lideranças políticas interessadas em resolver o problema de maneira responsável. Só para lembrar: os comitês de bacias hidrográficas são órgãos colegiados, com representantes de vários segmentos da sociedade, que atuam na gestão de recursos hídricos. Os comitês existem desde 1988.
É importante que a sociedade compreenda que os rios poluídos carregam unicamente notícias ruins. Da perspectiva ambiental, isso é obvio. Do ponto de vista social, um rio de classe 4 é uma ameaça evidente à saúde e ao bem-estar da população.  E, em termos econômicos, um rio poluído significa a diminuição da disponibilidade hídrica para diversos usos, o aumento dos custos de tratamento e gastos altíssimos com obras para captar água de outros lugares.

Brasil
O País possui 12% das reservas de água doce disponíveis no mundo, sendo que a Bacia Amazônica concentra 70% desse volume. O restante é distribuído desigualmente para atender a toda população brasileira. O Nordeste possui menos de 5% das reservas e grande parte da água é subterrânea, com teor de sal acima do limite aceitável para o consumo humano.


Represas
          Outra preocupação diz respeito às represas brasileiras. Além do baixo nível registrado em alguns reservatórios em épocas de seca, há agora o medo de que elas se rompam, como aconteceu em Mariana e mais recentemente em Brumadinho. Ambos os casos ocorreram em Minas, com barragens de rejeito aponta para s de minério, mas fica o alerta com relação às represas hidrelétricas.
Autoridades se reuniram em Piraju, no dia 15 de fevereiro para discutir um plano de ação, caso haja ruptura das barragens que ficam na cidade. PM, bombeiros, defesa civil e representantes das usinas de Piraju e Jumirim participaram do encontro. A ação é preventiva; já que as usinas são interligadas pelo mesmo rio e o rompimento de uma barragem teria um efeito cascata, atingindo bairros próximos. Existem cinco usinas na região, sendo que a Usina de Paranapanema é a que tem o risco médio de rompimento.

Amanhã, na segunda parte desta reportagem, consultor aponta para a responsabilidade do homem na preservação das águas

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